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Descobrindo o "eu"

Pouca reflexão fazemos da nossa vida para percebermos nela a unidade narrativa que ela é: somos todos um livro cujas páginas são escritas às várias mãos, de amigos e inimigos, de familiares e colegas, de trabalhos e escolas, de interesses sociais e amores, e uma parte disto é o que poderíamos chamar do eu, que anda muitas vezes trancafiado nas profundezas de seu próprio ser só engolindo os seres de outros seres, de outros eus. É verdade que o caminho de descoberta de si não se passa pela ruptura com amigos, inimigos, família, com trabalhos, nada disto; se passa pelo seguir exatamente neste caminho e absorvendo o que nós mesmos vimos e encontramos dentro de nós pelo espelho da realidade exterior. O mundo se divide em interior e exterior, o interior é o próprio eu numa matéria-prima potencial o tempo todo trabalhada e retrabalhada, nunca esgotada em si; o exterior é matéria-prima para o interior e ao mesmo tempo é o seu agente formulador, o progenitor do eu, mas não isoladamente. Existe ...

O resgate da linguagem pelos artesãos da língua

O resgate da cultura passa pelo resgate da linguagem, mas o que isto significa? Quer dizer que a aquisição de cultura é proporcional ao enriquecimento da linguagem para dar nomes às coisas. Em que consiste este enriquecimento da linguagem? Primeiro, em adquirir a riqueza contida nas palavras que já existem na sua língua, porque elas expressam um conjunto de experiências fenecentes dos tempos passados, tornando-as claríssimas e salutares ao tempo presente, amarrando-as. Segundo, pela consciência da forma de sua língua e não torná-la sonoramente caótica com termos e expressões alheias a ela.  A boa língua é uma obra de artesão, não é casual que se chama "texto", uma obra tecida de palavras que remetem um fato descrito, narrado e analisado, um enredo. Podemos adquirir esta riqueza artística nos livros, porque neles outros artesãos da língua trabalharam com vigor para tecê-la, em chinês há um expressão que diz: "Mil martelos e cem refundições" para descrever o forçoso...

A Páscoa - A Ressurreição da alma

Estamos no prelúdio para a Páscoa, num estado de vigília, de espera esperançosa, se me permite a redundância. Isto porque o mistério da ressurreição é um mistério que está para além das forças aparentes, para além da carne. A ressurreição de Cristo significa a ressurreição da alma humana perante este mesmo mundo que outrora o açoitara, massacrara e difamara ao último. A glória do homem está no seu corpo, embora ele mesmo não seja a sua causa, mas o efeito. O visível manifesta o que é invisível, um corpo dilacerado como foi o de Cristo pareceu que mereceu a pior punição do mundo, quando na verdade não merecia nem sequer um xingamento contra si, o ódio do mundo e o peso do pecado, isto é, da morte na alma de cada homem, é que fez o sofrimento de sua alma se manifestar visível. Mas se mereceu, por nós, tamanho castigo, mereceu mais ainda receber a mais alta glória humana, sim humana, porque foi o Cristo humano quem morreu na Cruz, a divindade não morre, embora tenha se deixado padecer na ...

Sobre algumas culturas transmitidas por Tradição Viva

A aquisição de certas culturas só se dá no âmbito individual, pessoal e numa comunicação direta, que se dê pelo menos por um canal eficaz de comunicação. Alguns exemplos de cultura que se encaixam em tais tipos são: A Filosófica, a Cristã, a Médica, a Maçônica. Em todas elas vemos o comum de haver iniciação de alguma forma, a cultura é transmitida por meio de uma tradição, esta traz todo um corpo de ideias, teorias e práticas que não podem ser aprendidas apenas por meios fixos e mortos como livros, mecânicos, ferramentas ou repetições miméticas. Esta tradição é dada por seres vivos que absorveram tais tradições e somente o indivíduo que já domina uma tradição, que esteja dentro dela, pode conferir e aceitar o outro igualmente.  Na Filosofia, o candidato a filósofo só recebe tal tradição em acompanhando outro filósofo em vida, o canal de comunicação deve ser individual e pessoal, a comunicação deve ser direta, mas outrora se pensava que deveria ser presencial, mas é sabido que nem s...

Natal: Tempo de Esperança

A cada ano o valor do Natal diminui porque as pessoas estão perdendo a fé em si mesmas, no futuro e na bondade. Parece duro o que digo, mas não é, uma sociedade que aceita normas pela sobrevivência já é uma sociedade que está morrendo. vivemos numa sociedade enferma de espírito, de cultura, de sadia relação com o outro eu, uma perda abissal da empatia que fora substituída pela norma. A norma é uma senhora muito estranha, ela chega devagar como uma imposição quase natural ao modo como a casa procede, e quando menos se pensa lá está ela mandando no jeito que se limpa o fogão, como se limpa a pia e os talheres, de quanto sal se põe na comida, o frango não pode ser frito, tem que ser assado, diz em alto e estridente som. Ela é mandona, turrona, mas agora que foi recebida por um contrato já não quer sair da casa. Quando menos se nota, os moradores da casa saem e esquecem que os donos da casa são eles, então ela manda e comanda o que nunca lhe pertencera. O Natal é o dia que Nosso Senhor ...

O que é uma Nação? Parte 2: A Formiga, o Lobo e o Homem

Uma nação é um corpo coerente de pensamentos e impressões que pessoas e famílias amplas têm entre si, é uma relação mais complexa que a de mero grupo ou associação temporária, é como dizem, um conjunto de famílias. Acrescentaria que Nação é um verdadeiro Corpo Místico, pois enquanto o sentimento de pertença a uma nação existe, existe algo de místico dentro de cada um de seus membros.  Um Corpo Espiritual, nação é isto. Alguns dizem que este sentimento de nação existe por causa do instinto tribal ou animal semelhante a uma matilha ou manada, outros ainda a um formigueiro ou colmeia. É a relação de sobrevivência entre membros em prol de um objetivo que é a mesma sobrevivência. Com a evolução, este processo foi se complexando mais e mais a ponto de se tornar abstrato e sentimentalmente diverso conforme a geografia e história. De fato, isto existe, mas está num campo inferior de atuação, já que se o homem se vê como semelhante à colmeia ou a um cupinzeiro, não o faz por uma comprovaçã...

O que é uma Nação? - Parte 1: Contra o Utilitarismo

 Pensando em qual seria o título para o próximo artigo e com qual assunto este lidaria, fui à janela de minha casa e presenciei uma ideia; vi uma família de periquitos a voarem em plena selva de concreto paulistana e disforme. Queria acrescentar um comentário à esta deformidade que é a cidade de São Paulo; não é que eu não ame esta cidade, a amo e por isso mesmo a critico ferozmente. São Paulo é o símbolo da pujança nacional brasileira e se esta pujança anda mal das pernas, é sinal de que algo anda mal na nação. Penso na harmonia com que os pássaros voam pela cidade apesar de sua feiura disforme. Nação é isto, voar apesar das encunhas e inconhas disformes.  O problema paulistano surgiu quando a cidade adotou o maldito e mal dito modelo arquitetônico modernista. O modelo modernista de arquitetura consiste em não ter modelo algum, é uma antiarquitetura. A arquitetura modernista desvalorizou as formas das construções para o utilitarismo pós-moderno, um prédio não deve ser bonito,...